Resumo executivo: O Brasil entrou em 2026 com três forças atuando ao mesmo tempo: (1) proteção comercial mantida pela prorrogação da tarifa de importação da borracha natural em 10,8% até agosto de 2027; (2) mercado global estruturalmente apertado, com consumo projetado acima da produção pelo sexto ano seguido; e (3) formação de preço doméstico ainda muito sensível a câmbio, bolsa de Cingapura e frete. Para o produtor, isso significa que “mercado global firme” não garante automaticamente preço interno forte.
1) O que mudou no Brasil: a tarifa foi prorrogada até agosto de 2027
Em setembro de 2025, o Gecex/Camex aprovou a prorrogação por 24 meses da alíquota de 10,8% para importação de borracha natural, com vigência até agosto de 2027. Segundo o Ministério da Agricultura, a medida busca dar previsibilidade ao setor e reduzir impactos de concorrência externa sobre a heveicultura nacional.
Fonte: gov.br/agricultura
No mesmo comunicado, o Mapa informa que o Brasil produz em média mais de 370 mil toneladas/ano, com São Paulo respondendo por mais de 60% do volume nacional. Também aponta que, nos últimos cinco anos, a produção local supriu em média 57% da demanda interna, mantendo dependência de importação entre 40% e 50%.
Fonte: gov.br/agricultura
2) O que mudou no mundo: oferta segue abaixo da demanda em 2026
Em fevereiro de 2026, dados reportados pela Reuters com base na ANRPC indicam que a demanda global de borracha natural deve superar a produção pelo sexto ano consecutivo. A projeção citada é de produção global em 15,2 milhões de toneladas (+2,4%) e demanda em 15,6 milhões de toneladas (+1,7%).
Fonte: Economic Times (Reuters/ANRPC)
A mesma cobertura menciona fatores estruturais de risco de oferta: replantio insuficiente, produtividade pressionada e avanço de doenças foliares, com perdas de rendimento reportadas em alguns polos produtores na faixa de 30% a 35%. Também indica expectativa de produção estável na Tailândia e continuidade de queda na Indonésia.
Fonte: Economic Times (Reuters/ANRPC)
3) Por que o preço no Brasil continua “travado” em vários momentos
Mesmo com cenário global apertado, o preço doméstico segue ancorado na paridade de importação. O indicador CNA/IEA para janeiro de 2026 foi de R$ 13,91/kg, alta mensal de 3% sobre dezembro (R$ 12,81/kg). A leitura técnica da CNA foi clara:
- cotações na bolsa de Cingapura subiram 6% no mês;
- o dólar caiu em média 2,1%, atenuando parte da alta;
- o frete marítimo internacional recuou 10,3%;
- o índice de referência fechou janeiro em 154,28 (+2%).
Fonte: Portal CNA Brasil
Tradução prática: a tarifa de 10,8% cria um “amortecedor” importante, mas não elimina a influência de três variáveis de curto prazo: câmbio, Cingapura e logística. Quando esses três vetores não andam na mesma direção, o preço ao produtor pode oscilar menos do que o mercado internacional sugere.
4) Cenários de preço para 2026 (leitura operacional)
Cenário-base (mais provável): mercado internacional firme, porém com transmissão parcial para o Brasil. A sustentação global (déficit estrutural) convive com repasses incompletos por câmbio e custo de internalização.
Cenário altista: demanda global acelera acima do esperado e/ou ocorrem novos choques de oferta climática/sanitária na Ásia, com repasse mais forte para Cingapura e, depois, para a paridade no Brasil.
Cenário de compressão de margem: mesmo com mercado externo firme, apreciação cambial e frete mais baixo reduzem a paridade de importação em reais, limitando ganho ao produtor.
5) O que produtor e usina podem fazer já
- Negociar com referência objetiva: usar, mês a mês, a decomposição do indicador CNA/IEA (bolsa, câmbio, frete) para reduzir assimetria na negociação.
- Separar preço de margem: controlar custo por kg, perdas operacionais e padrão de qualidade para capturar melhor o preço disponível.
- Planejar janela de venda: evitar concentração de venda em períodos de câmbio desfavorável quando houver flexibilidade de caixa.
- Acompanhar risco global de oferta: sinais de doença foliar, clima e produção em Tailândia/Indonésia ajudam a antecipar movimentos de mercado.
Conclusão
Em 2026, o setor brasileiro de borracha natural opera com um “tripé” de formação de preço: proteção comercial doméstica, aperto estrutural global e fricções de transmissão via câmbio/logística. A prorrogação da tarifa em 10,8% até 2027 melhora previsibilidade e reduz pressão competitiva externa, mas não substitui gestão ativa de preço, custo e timing de venda.
Para quem está no campo ou na usina, a prioridade não é acertar o pico da cotação: é construir regularidade de margem em um mercado que continuará técnico e volátil.
Fontes
- Ministério da Agricultura (Mapa): prorrogação da alíquota de importação de borracha natural até 2027 — https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/governo-federal-prorroga-aliquota-de-importacao-da-borracha-natural-ate-2027
- CNA: preço de referência de importação em janeiro/2026 (R$ 13,91/kg) — https://www.cnabrasil.org.br/noticias/preco-de-referencia-de-importacao-da-borracha-natural-sobe-em-janeiro-e-chega-a-r-13-91-kg
- Economic Times (matéria com dados Reuters/ANRPC sobre projeções globais 2026) — https://economictimes.indiatimes.com/small-biz/trade/exports/insights/natural-rubber-demand-to-exceed-output-keeping-prices-high-in-2026-says-anrpc/articleshow/128545717.cms

