O mercado de borracha natural atravessa, em fevereiro de 2026, um período de pressão consistente sobre os preços internacionais. O contrato de TSR20 na SGX-SICOM opera entre 180 e 191 centavos de dólar por quilo — nível que representa queda de aproximadamente 11,5% em relação ao mesmo período do ano passado, quando as cotações ultrapassaram 221 USX/kg. Para o produtor brasileiro, o quadro é agravado por um câmbio desfavorável: o dólar comercial recuou ao patamar de R$ 5,24 em meados de fevereiro, distante do pico de R$ 6,10 registrado nos últimos doze meses.
A demanda chinesa no centro do movimento
A China é responsável por mais de 40% do consumo global de borracha natural e o comportamento de sua indústria de transformação define, em grande medida, os movimentos de curto prazo nas bolsas de Singapura e Xangai. Em janeiro e fevereiro, dois fatores convergiram para comprimir a demanda: a desaceleração sazonal da produção de pneus antes do Ano Novo Lunar e o término do ciclo de pré-estocagem que havia sustentado as cotações no início de 2026.
Os dados de inventário em Qingdao — o principal porto de entrada de borracha natural na China — ilustram essa dinâmica. Os estoques totais de borracha natural (comércio geral e bonded) atingiram 504.300 toneladas em meados de janeiro, acréscimo de 4.200 toneladas em relação ao período anterior. A taxa de utilização das linhas de fabricação de pneus semi-steel estava em cerca de 78%; nas unidades de pneus full-steel na província de Shandong, a operação ficava em torno de 60%. Esses números confirmam que a demanda spot imediata é limitada.
O risco geopolítico adiciona incerteza ao quadro. A retomada de tarifas norte-americanas sobre importações chinesas, sob a administração Trump, eleva os custos de exportação da indústria de pneus da China para os Estados Unidos — o que, por reflexo, pode reduzir a demanda chinesa por borracha natural nos meses à frente.
O câmbio como amplificador no Brasil
Para o produtor brasileiro, a variação cambial é um segundo vetor de pressão. O dólar comercial, que operou próximo a R$ 6,10 em momentos de estresse financeiro do ano passado, recuou para a faixa de R$ 5,20–5,26 em fevereiro de 2026. A apreciação do real — da ordem de 8% nos últimos doze meses, segundo dados do Banco Central — reduz diretamente a conversão dos preços internacionais em reais, comprimindo a receita do setor.
A referência de importação de borracha natural no Brasil, calculada mensalmente pela CNA em parceria com o IEA/Esalq, alcançou R$ 13,91/kg em janeiro de 2026 — valor que, embora represente alta de 3% frente a dezembro, fica 10,2% abaixo do registrado em fevereiro de 2025, quando a referência estava em R$ 15,49/kg. O índice computa preço internacional, frete, seguro e encargos de internação, e serve como balizador de negociação para produtores nacionais que competem com o produto importado.
Entressafra asiática como fator de suporte
O saldo do quadro não é inteiramente negativo. A estrutura sazonal do mercado favorece uma limitação natural da oferta entre fevereiro e maio: durante esse período, as seringueiras nas principais regiões produtoras da Tailândia, Indonésia e Vietnã entram em fase de menor extração, reduzindo o volume disponível de látex. Esse padrão recorrente tende a sustentar as cotações e, historicamente, antecede a alta da oferta que começa com o pico da safra asiática, entre junho e setembro.
Em seu relatório de dezembro de 2025, a Associação dos Países Produtores de Borracha Natural (ANRPC) caracterizou o movimento recente de preços como "consolidação saudável" após os ganhos expressivos registrados no primeiro semestre de 2025. A entidade projeta que a demanda global deve crescer 1,8% em 2025, para 15,6 milhões de toneladas, enquanto a produção deve avançar apenas 0,3%, para 14,9 milhões — um déficit estrutural que persiste há vários anos. A ANRPC descreveu o período atual como um possível "trampolim" para a próxima alta de preços, sem precisar horizonte temporal.
O que esperar nas próximas semanas
No curto prazo, os vetores apontam em direções opostas. A demanda chinesa deve permanecer contida até que as fábricas retomem ritmo pleno após o feriado do Ano Novo Lunar — o que costuma acontecer entre o fim de fevereiro e meados de março. Por outro lado, o avanço da entressafra nas regiões produtoras da ASEAN deve limitar aumentos expressivos de oferta.
O comportamento do câmbio continuará sendo determinante para a rentabilidade dos heveicultores brasileiros. Se o dólar se mantiver na faixa de R$ 5,20–5,30, a pressão sobre as margens persistirá, especialmente para produtores de menor escala que não têm hedging ou contratos de longo prazo com usinas.
No horizonte regulatório, o prazo da EUDR — a regulação europeia que exige rastreabilidade e prova de origem sem desmatamento para sete commodities, incluindo borracha natural — está fixado em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. O adiamento de um ano, aprovado pelo Parlamento Europeu em dezembro de 2025, alivia a pressão imediata sobre exportadores, mas não elimina a necessidade de investimento em rastreabilidade e geolocalização de polígonos de produção.
Conclusão
O mercado de borracha natural em fevereiro de 2026 reflete um momento de ajuste: preços abaixo das máximas de 2025, demanda chinesa em compasso de espera e câmbio desfavorável para o produtor brasileiro. A entressafra asiática e o déficit estrutural global oferecem suporte técnico, mas a recuperação expressiva das cotações depende de um conjunto de condições — retomada da demanda em Qingdao, definição do cenário tarifário sino-americano e comportamento climático nas regiões produtoras — que ainda não se consolidou. Para produtores e usinas brasileiras, o momento exige monitoramento próximo dos indicadores internacionais e atenção ao prazo regulatório da EUDR, que avança independentemente das oscilações de preço.
Fontes: SGX-SICOM, ANRPC Monthly NR Review (dez/2025), CNA/IEA – Índice de Referência de Importação (jan/2026), Banco Central do Brasil (PTAX fev/2026), TradingEconomics, Echemi, Mongabay, Comissão Europeia (Regulamento EU 2025/2650).

